Florianópolis, Brazil
Ser I
Eu sou antes, eu sou sempre, eu sou nunca.
À duração da minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.
Sou sozinha, eu e minha liberdade. É tamanha a liberdade que se pode escandalizar um primitivo.
Não sei o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma.
O mundo: um emaranhado de fios telegráficos em eriçamento. E a luminosidade no entanto obscura: esta sou eu diante do mundo.
Ser II
Eu, que vivo de lado, sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo.
Eu não sou promíscua.
Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.
Sou um coração batendo no mundo.
Eu – eu sou a minha própria morte.
Sou herege. Não, não é verdade. Ou sou?
Mas algo existe.
(Clarice Lispector)