Do ventre escuro de um porão nasce a reza. É o grito dos oprimidos no batuque das águas do mar, é o gene do mundo, dentro de mim. No mar fundo do cativeiro ela se forma, na festa de umbanda se mostra, é cantiga de roda, prece em forma de som, batismo viril da dor, que é o lugar mais fundo, o umbigo do mundo. Na noite funda a viagem longa me ensinou a cantar, e foi no balanço das ondas que aprendi a bater seu tambor, no surdo porão eu vi o clarão, no giro do mundo, e a certeza de que quando a reza desce no terreiro é porque saiu do navio negreiro pra nos libertar.
Eduardo Barros Leal, 2014
Texto inspirado por “Yayá Massemba” de Roberto Mendes interpretada por Maria Bethânia.
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